ENTRE A DOR E O GEMIDO - Parte I
ENTRE A DOR E O GEMIDO - Parte I

INTRODUÇÃO

“Os meus olhos estão continuamente no Senhor, pois Ele tirará os meus pés da rede.Olha para mim, porque estou solitário e aflito. As ânsias do meu coração se têm multiplicado; tira-me dos meus apertos. Olha para a minha aflição e para a minha dor e perdoa todos os meus pecados” (Salmos 25. 15-18).

Comecei escrever estes versos tempos depois que minha mãe faleceu. Decorridos trinta e dois dias após esse trágico momento houve o falecimento de minha querida esposa.Dei continuidade após outro tempo a esse expressar de sentimentos.Entretanto, continuo dizendo que Deus é fiel,pois ainda que sejamos infiéis Ele permanece fiel. Não pode negar a si mesmo, e nele não há mudanças,nem sombra de variações(II Timóteo 2. 13 e Tiago 1. 17).

Não os escrevi no ano em que elas faleceram em 2010, fiz isso uns três anos depois, provavelmente iniciei em 2013, fui fazendo pouco a pouco. Concluí-os em 2016, após escrever 426 estrofes. O tema varia entre os turbulentos sentimentos de minha alma, o sacral, e o leve abalo de minha espiritualidade.

Mesmo em meio a tantas turbulências, Jesus me tem feito voar nas asas da graça, e é por causa desta graça que posso dizer: “Tive grandes descobertas e aprendizados, quando o arqueólogo Deus escavou a minha alma”.

Aprendi com o Santo e inerrante livro de Deus,a Bíblia Sagrada,que com a tristeza se faz melhor o coração. (Eclesiastes 7. 3).

Aprendi que é melhor está na casa do luto, do que na casa do banquete, porque ali se medita no fim de todos os homens. (Eclesiastes 7.2).

Aprendi que para aqueles que obedecem a palavra de Deus, é melhor o dia da morte do que o dia do nascimento e o fim das coisas do que o princípio delas (Eclesiastes 7. 1).

Aprendi que quando partimos deste mundo, ficamos ausentes deste corpo para estarmos presentes com Deus. (2 Coríntios 5. 6,8).

Aprendi que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus (Romanos 8. 28).

Aprendi que a obra de cada um será provada pelo fogo, seja ela ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha.I Coríntios 3.12-15 e 2 Coríntios 5.7).

Aprendi que muitas vezes estamos na zona de conforto, mas chega o momento que somos lançados na fornalha da aflição. (Isaías 48.10).

Aprendi também que nossas lágrimas são histórias escritas no livro de Deus. São mais preciosas que o mais fino vinho, pois este se encontra nos odres dos homens, enquanto que as lágrimas estão nos odres de Deus. (Salmos 56.8).

Aprendi que as aflições do tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada. (Romanos 8.18).

Aprendi que não tenho que ver para crer, mas crer para ver, pois não vivemos por vista, mas por fé. (2 Coríntios 4.18).

Aprendi que apesar das lutas não devemos recuar, pois assim não terá Deus prazer em nós. (Hebreus 10.38).

Aprendi que o choro pode durar uma noite inteira, mas a alegria vem ao amanhecer (Salmos 30.5).

Aprendi que os mais belos hinos e poesias foram escritos em momentos de tribulação. (Hino, Harpa Cristã número 126).

Enfim, aprendi, e repito que só teremos grandes descobertas se permitirmos que o grande arqueólogo Deus escave as nossas almas.

Aprendi...

Nilson Silva.

 

ENTRE A DOR E O GEMIDO (Dirceu sem Marília).

 

01

Meu sorriso já não está como dantes.

A dor coloca em mim um disfarce.

As lágrimas teimam banhando minha face.

Já não tenho paz, nem por um instante.

 

02

Estou com a vestimenta da dor;

Não tenho minhas vestes de festa.

A amargura estampada em minha testa

Denuncia-me por onde eu for.

 

03

Nunca saberão, querida, o que sinto,

Pois eles não sabem o quanto te amei.

Mas eu tenho provado, e bem sei,

O gosto deste pranto e absinto.       

 

04

Estou traspassado de tanta melancolia.

Esta manhã, querida, chorei encostado naquela árvore

Que você plantou. Sei, sou resquício de barro

e não de mármore, e minha alma geme de tanta nostalgia.

 

05

Há muito não chove no meu ermo.     

A minha terra está árida e estéril,

Mas sei que tenho um Deus de mistério

E não me deixará andar a esmo.    

 

06

Senhor, vem e me envolve com teu abraço.

Jesus, quero chorar encostado no teu ombro.

Minh’alma está soterrada nos escombros.

Acode-me depressa com teu forte braço!

 

07

Estou preso e não vejo como sair.

Amarrado por um emaranhado de problemas.

Viver ou morrer: eis um dilema.

Senhor, socorre-me! Não me deixes cair.

 

08

Mas eu morri. Meus sentidos já não estão neste mundo.

Será esta dor um salário, um prêmio?

Será que errei tal qual boêmio?

Ando pelas ruas semelhantes ao moribundo.

 

09

O gemido da minh’alma me obriga a perguntar:

“Senhor, porque tudo isto,o que eu fiz?”

Ele permanece calado e nada me diz.

E minha dor faz minha voz embargar.

 

10

Minha amada se foi. Já não estou com ela,

Àquela a quem ama a minha alma.

Quase que eu perdi a calma.

Não paro de pensar nela.

 

11

Um dia sonhei que tínhamos rompido.

Porém, logo voltaria para você.

O sonho me fez esquecer

Que minha amada mulher tinha morrido.

 

12

Acordei, minha companhia era a decepção.

Então soltei um grande suspiro.

Estou ofegante, e já não respiro

Por causa da dor que atravessa meu coração.

 

13

Sou como a árvore desfolhada,

Atingida pela seca da dor.

Perdeu a seiva e o vigor,

Sem perspectiva de ser regada.

 

14

Já não espero pela chuva temporã,     

É inóspita a minha terra.                         

Então corro, subo àquela serra

Desejoso a serôdia, mas é vã.        

 

15

Sei que Deus fará cessar a noite escura

E que um novo dia vai raiar,

Um hino ao Senhor vou cantar.

Ele tirará toda coisa impura.

 

16

Sei que Ele me dará um novo canto,

Um sorriso nos meus lábios brotará.

Neste vale não vou mais estar,

Pois já tem cessado meu pranto.

 

17

Senhor,tu és minha rocha, meu abrigo.

Quando partirei e deixarei este corpo

Que, por causa do pecado, me deixa todo torto?

Ficarei ausente dele, porém, presente contigo.

 

18

Disse Paulo uma coisa que me impressiona:

“O que eu quero não faço”, isto revela todo defeito.

“E o que não quero,sem perceber, já tenho feito”.

Minha consciência traz à tona meu pecado.

 

19

Um dia adentrarei no país do amor.

Sairei deste mundo de maldade.

Então, querida, matarei minha saudade,

Que me consume com toda esta dor

 

20

Se eu tombar e secar a minha fonte

Sei que saí apenas da mesmice.

Jamais conhecerei as mazelas da velhice,

Pois fui contemplar um novo horizonte.

 

21

Sei que a alegria de mim já fugiu.

Sinto dos teus cabelos o aroma.

Minha alma há muito entrou em coma

Pela dor que me atingiu.

 

22

Tenho comido angústia por alimento.

As iguarias do meu prato

É dor, amargura e mau-trato.

Mora no meu peito um horrível sentimento.

 

23

Esta dor me faz gemer e gritar,

Torna meu folguedo em luto.

Mas tu Senhor, me tornas impoluto,

Em meio a dor que me quer manchar.

 

24

Minha alma está como quem tomba,

Num caminho íngreme e escarpado.               

Estou tão enfadado...

Numa estrada que só se alonga.

 

25

Já deixei de lado esta vida

Escavo pela morte

E quem sabe aniquilar a má sorte

De uma existência tão sofrida.

 

26

Deus deixa pôr minha cabeça em teu colo,

Qual filho que do pai quer seus braços.

Quero para ti contar meus fracassos,

Pois estou lançado ao solo.

 

27

Senhor, não consigo sequer falar.

A minha alma a ti clama,

Semelhante a tua serva Ana,

Dos lábios, apenas um sussurrar.

 

28

Vem Deus, acode-me depressa!

Meu coração geme e chora todo dia.

Tira-me de tamanha agonia.

Vem socorrer-me depressa.

 

29

Desta dor eu quero a cura.

A vida é dura e malvada.

E esta dor como que cravada

Pelo punhal da amargura.

 

30

Sei que antes que eu venha perecer

Escreverei MANASSÉS (Deus fez me esquecer),

Pois de todo meu revés,

A dor Deus já me fez perder.

 

31

Escreverei também EFRAIM,                    

Pois duplamente frutífero serei

E de tudo isto eu bem sei

Que Deus tudo fez por mim.

 

32

Minha alma cantar anela.

Aguardo que o inverno cesse.

Então te farei uma prece,

Olhando o céu pela minha janela.

 

33

Sei Senhor, que te ouvirei falar:

“Homem, EU SOU a tua sorte,

Por que me pedes a morte?

No tempo devido vou te exaltar”.

 

34

Tu és vida Senhor, tu és luz.

Quando me ponho a gritar,

É contigo que tenho que falar.

Tu és Deus, tu és Jesus.

 

35

Senhor, sinto-me esquecido em “Lo-Debar”.                                                      

Como que lançado no lixo e no pó.

Muitas vezes me sinto só

E com uma enorme vontade de chorar.

 

36

Anseio pelos braços da minha amada.

Já não suporto a saudade dela.

Querida, minha alma te anela.

Minha vida está tão amargurada!

 

37

Sinto perto de mim o teu coração

E fortemente o cheiro do teu pescoço.

Então faço um tremendo esforço

Para não sair desta ilusão.

 

38

Hoje vivo apenas de lembranças.

A saudade vem e me devora

E a cruel dor que me apavora

Deixa-me indefeso tal qual criança.

 

39

No infinito está a minha mente.

Ando chamando o seu nome.

Então, querida, meu grito some

E eu choro amargamente.

 

40

Conheci-te esposa amada.

Apresentaste-me a felicidade,

Mas por uma funesta fatalidade                   

Fiquei com a alma amargurada.

 

41

Alguns sonhos também morreram,

Sei que não voltarão jamais!

Tão longe tu estás

E assim sendo já pereceram.

 

42

A saudade é tão grande, querida,

Estou vivendo dias de caos.

Meus momentos são maus

Arrasto-me por esta vida.

 

43

Ah, querida,estou tão magoado!

Hoje estive contigo, com você sonhei,

Mas assim que despertei

Tu já não estavas do meu lado.

 

44

Sinto a cama vazia,

Já não passeias pela casa.

Sou como pássaro sem asas

Que chilreia noite e dia.         

 

45

Querida, cortante é esta saudade.

Estou desesperado para amar-te!

Mui desejoso de encontrar-te

E voltar a ter felicidade.

 

46

Às vezes querida, estou tão perto de ti,

Que pensar nisto me ponho.

Porém, acordo, era apenas um sonho.

Extasiado eu volto a mim.

 

47

Choro, grito, e às vezes lamento.

Estou numa estrada quase sem fim

Quando de repente vem em mim:

“Estou lançado no esquecimento”.

 

48

Senhor, já fiz transbordar os teus odres,         

Com minhas lágrimas os tenho enchido.

Tenho encharcado os teus vestidos

Guarda-as bem nos teus cofres.

 

49

Grande é essa dor, falo a verdade não minto.

Foi-se quem abrilhantava meu chão.

Hoje me chamam de chorão,

Talvez por não saberem o que sinto.

 

50

Sei que sou um cara comum.

Ultimamente vivo na mesmice.

Às vezes cheio de esquisitice.

E os amigos? Por vezes nenhum.

 

51

Sei que vou deixar este tabernáculo                     

Da terra vou desaparecer.

De tudo aqui eu quero esquecer,

Para sempre estar no teu cenáculo.                                                                                                                       

52

Ainda estou neste pedaço de chão

E irei cultivar a minha gleba.                         

Deus é quem ao céu me leva,

Jamais lutarei em vão.

 

53

Ali converterá meu pranto em alegria

E não deixará meu espírito calar de uma vez.

Eu sei que sou um homem soez.                          

Tenho chorado noite e dia.

 

54

Lá não terei a nódoa da escória,

Nem a ignomínia que tenho sofrido.             

Serei com certeza socorrido

Pelo Deus que muda a história.

 

55

Disse o poeta: “Os mais belos hinos e poesias

Foram escritos em momentos de tribulação.

Em meio à grande escuridão

Se ouviram grandes melodias”*                             

 

56

Estou gravado nas mãos do todo-poderoso.

Tudo isto é para que eu seja purificado,

Tal qual ouro brilhante iluminado.

Não adianta eu fazer nenhum esforço.

 

57

Fui lançado na fornalha da aflição.

Sei que ali serei provado,

Confesso, estou todo apavorado

Ante horrenda situação.

 

58

Minha alma grita, pois está em agonia.

Estou amarrado com as cordas da dor,

Parece que por onde eu for

Esta será a minha companhia.

 

59

Senhor, estou prestes a perecer.

Estou lançado em tão profunda cova.

Duro para mim é esta prova.

Para sempre vais me esquecer?

 

60

Estou navegando num mar de dor.

Remando no barco da insegurança,

Parece até que minha esperança

Já desfaleceu e acabou.

 

61

Tenho o desejo ardente de partir

E lá no paraíso célico viver,

De tudo aqui me esquecer

E desfrutar a doce paz do porvir.                               

 

62

Entrei em conflito de uma só vez

Pois alguns me taxam de ocioso,

Outros até de preguiçoso,

Por não entenderem meu estado de morbidez.                                                                                                                   

 64

Há um mal que me amarra e me acorrenta,

Sugando mais de década da minha existência.

Pondo à prova minha escassa paciência,

Causando em minha alma grande tormenta.

 

65

Já não consigo comemorar meu nascimento,

Pois já tenho amaldiçoado aquele dia.

Que só me trouxe agruras e agonias,

Tenho-o lançado no esquecimento.

 

66

O tempo como hábil lavrador

Abre profundos sulcos no meu rosto,

Regando pelas valas do desgosto

Os sufocantes espinhos da dor.

 

67

Deus, tu és o amparo do teu povo.

Para nós tu és um grande escudo.

Que nos salva e nos protege de tudo

E nos faz passar pelo renovo.

 

68

Tu fazes escavações em mim

Para extrair o mais rico tesouro.

Ainda que na minh’alma cause um estouro,

Sei que não será o meu fim.

 

69

Já não sei se ainda sonho

E nem se ainda me conheço,

Mas sei que me encontrar careço.

Então a pensar nisto me ponho.

 

70

Diz-me as santas e imutáveis Escrituras:

“Melhor é o fim das coisas, do que o início delas”.

Sei que para cumprir tuas palavras velas,

Ainda que isto nos cause grandes amarguras.

 

71

Abominei o dia do meu nascimento,

Pois em mim já não existia mais alegria.

Na cruenta dor minha alma estremecia

Desconhecendo tal destino e todo este intento.

 

72

Gritei tal qual profeta Jeremias.

“Serás, Senhor, tu para mim ilusório?”

Já não te sinto, já não és notório.

Grande é esta minha agonia.

 

73

Já não há nesta vida satisfação.

Chego a desejar que encerrem os meus dias.

Estou lançado em terra, estou posto em agonias.

Desejo sair da terrena habitação.

 

74

A dor parece ouvir-me dizer: “Acompanhe-me”.

Então choro e me lanço no meu leito.

Sou semelhante ao menino de peito,

Gritando desesperado pela mãe.

 

75

Desejei ter o direito de decidir

E ser consultado antes da concepção,

Se eu gostaria de vir a este mundo ou não

Chorei, pois desejei jamais existir.

 

76

Perdoa -me Mestre, a minha ousadia,

Às vezes chego achar teu silêncio irritante.

E minha alma perante ti tão gritante

Clama-te e te deseja noite e dia.

 

77

Melhor é o dia da morte do que o dia do nascimento.

Eu concordo com a tua santa palavra.

Pois a dor que na minha alma lavra

Abre sulcos em mim sem nenhum consentimento.

 

78

Já cessaram o riso e a boa fama

Estou prostrado na velha rede.

Minhas lágrimas salpicadas na parede.

Sou como verme lançado na lama.

 

79

Ah, Senhor meu, passa teu azeite na minha ferida,

Acende meu fogo e minha tocha.

“Sacia-me com o mel que cai da rocha”,

Como disse o salmista, do trigo que me dá vida.

 

80

Diante de um Deus tão grande e excelso

Sinto-me que nada sou. Apenas pó.

Apesar disto sei que não estou só,

Por isso o teu nome sempre confesso.

 

81

A dor persegue-me tentando me acabar

E quer lançar-me para detrás do muro,

Pois não sabe que mesmo no monturo

Ainda assim o Senhor vai me buscar.

 

82

Senhor, tenho perdido a estima.

Tenho fugido de um fantasma.

Sim, a dor que me espanta e me pasma.

Então eu olho para ti, olho para cima.

 

83

Na poltrona da melancolia estou a sentar,

Com os pés apoiado na fleuma.                            

Aguardando um suspiro, a pneuma.       

Sou mero espectador assistindo a vida passar.

 

84

Estou de olho na TV da existência.

Em uma morada repleta de ilusão.

E está dor que faço alusão,

Tentando vem forçar minha desistência.

 

85

Vivencio o dia “D”. O dia tenebroso.

É uma noite negra de escuridão.

Mas olho no horizonte um imenso clarão

Do Deus que é mui forte e corajoso.

 

86

Nesta vida já não há sucesso nenhum,

Existe apenas um obscurecido futuro.

Sou como trapo velho no monturo,

Desprezado sem valor algum.

 

87

Minha condição de vida é enfadonha.

Atua em mim como um micróbio

Que ao hospedeiro causa opróbrio

Fazendo-o coberto de vergonha.

 

88

Senhor, tu tens sido meu alento,

Revelas-te a mim, a todos nós.

Faze-nos ouvir a tua voz,

Pois em teus braços me acalento.

 

89

Socorre-me,estou em mar turbulento.

A água já está além do meu pescoço.

Quero ouvir-te, mas não te ouço.

Já não entendo o teu intento.

 

90

Estou qual bêbado a cambalear,

Pela dor embriagado e entorpecido.

Como que da vida já esquecido,

Não consigo sequer andar.

 

91

Estou preso, todo amarrado.

Estou travado e não consigo me mexer.

Tento de tudo isto me esquecer.

Inútil é, está em mim tão agarrado.

 

92

Ando com grande dificuldade,

Arrastando mãos e pés.

Não tenho como sair deste revés

Procurando estou a felicidade.

 

93

Entre o choro e o riso,

Na divisão da guerra e da paz.

Já não sei como se faz,

Só sei que de ti preciso.

 

94

Cansado de tanto chorar

Em lágrimas me tenho desfeito.

Pela dor que rasga o meu peito

E triste é o meu cantar.

 

95

A dor me persegue e vem me afligir,

Corta minha alma de forma profunda.

Isto é para mim rio que inunda.

Esforço-me, mas não tenho como sair.

 

96

O Senhor limpa os porões da minha alma

E está disposto continuar esta faxina.

Claro, que isto não me fascina.

Coisa esta que vem me tirando a calma.

 

97

O vigor passou. Já perecem as minhas cãs.

Não há forças.Embaçada está minha visão.

Também já se despede de mim a audição

Nesta efêmera vida de lutas tão vã.                      

 

98

Sei que a planta da dor produz o fruto da poesia,

Pois com a dura tristeza se faz melhor o coração,

É o que nos diz a Palavra na sua santa unção.

O que é uma santa verdade e não uma heresia.

 

99

Sei que um dia findará todo esse meu revés.       

Quando o todo poderoso,o Deus da minha paz,

Esmagar e aniquilar o inimigo satanás.

Com grande poder bem debaixo dos nossos pés.

 

100

Sei que estou longe de atingir a perfeição,

E aqui sou mero acidente genético.

Mas lá no céu terei um perfeito estético,

Sem precisar de nenhuma correção.

 

101

Estou em cativeiro, longe de Jerusalém.

Estou na terra de Babilônia,

Mas não faço parte desta colônia.

Minha pátria está além.

 

102

Estarei além da terra de dor.

Onde ali tudo é primavera,

Não terei que enfrentar a fera

Desta vida de engano e dissabor.

 

103

Agora estou d’além do Jordão.

Tenho o meu nome mudado,

Pois em Deus estou mui grudado

Dele jamais abrirei mão.

 

104

Senhor, arrancaste de mim a felicidade

Arrebataste para ti meu coração.

Meus dias já não têm emoção,

Triste ando pela cidade.

 

105

Cessaram nossos dias de folguedo,          

Paira sobre nós um ar de morte,

Mudando todo o rumo da nossa sorte.

A dor já não é nenhum segredo.

 

106

Já não consigo me alegrar,

O riso fugiu da minha boca.

Ando como que para uma forca,

Um triste caminho a enfrentar.

 

107

Sinto uma inveja estranha

Daqueles que a terra do silêncio descem.

É lá que os sonhos fenecem.

Há um reboliço nas minhas entranhas.

 

108

Quando sairei desta noite escura

E verei um novo dia amanhecer?

Senhor não venha a me esquecer

No vale desta dor sem cura.

 

109

Tudo é tão difícil e doloroso!

O monte é alto e escarpado,

Mas tu estando ao meu lado

Nenhum caminho é escabroso.                         

 

110

Levanto meus olhos contemplando o infinito

Às vezes acho que não há saída,

Mas sei que antes da minha partida

Glorificarei o Deus bendito.

 

111

Meus amigos já não me visitam mais

Estou à semelhança de Jó,

Mas quando penso que estou só

Jesus diz: “Não te deixarei jamais”.

 

112

Que amor grande Senhor, e sem medida!

Tua bondade nunca terá fim.

Teus olhos estão postos em mim,

E vês a minha alma tão ferida.

 

113

Adentrarei as mansões celestiais,

Isto fala lá no meu íntimo.

Apesar de eu ser muito ínfimo,

Lá eu sei, não sofrerei jamais!

 

114

A forte dor que me acorrenta

Vem sussurrando para eu desistir.

E tentando vem me sucumbir

Arremessando-me em meio à tormenta.

 

115

Mas tua palavra é combustível

Que alimenta a chama da minha esperança.

Eu não passo de uma criança,

Contudo,sei que tua palavra é fiel e crível.

 

116

Tua palavra também é alento

E me faz ouvir tua voz.

Onde fico contigo a sós

E nos teus braços me acalento.

 

117

Tu és meu Deus, meu grande Rei

Sou teu filho, mas ainda que fosse teu vassalo

Correria somente para encontrá-lo

Juntamente com tua santa grei.                 

 

118

Tal qual Davi também estou debaixo das tuas asas,

Até que passem todas as calamidades.

Corro atrás da eterna felicidade,

Que só encontro na tua santa casa.

 

119

Senhor, como a ausência dela me dói!

Parece até que não tem jeito,

Essa dor dentro do meu peito

Pouco a pouco me corrói.

 

120

Desejo tanto, querida, te abraçar,

Sinto falta do teu afago.

Então vejo que me apago,

Pois aqui não vais passar.

 

121

Éramos dois em um só coração.

Estávamos unidos numa só carne.

Tu eras a minha outra parte.

Devastada está minha emoção.

 

122

Queria pegar nossos filhos e voarmos para aí

Então estaríamos juntinhos a ti, querida.

Daria adeus a esta terra tão sofrida,

Para jamais sairmos daí.

 

123

O gemido de dor que me suplanta

Devora-me e pouco a pouco me suga.

Mas sei que antes que eu suba

Só tu de mim esta dor arrancas.

 

124

Estou plantado em terra seca,

Gritando pela água que não vem.

Desejo brotar, ter vida também,

Não deixes que eu morra e te perca.

 

125

Não quero ser filho contumaz,                      

Pois se eu for, terei uma sentença.

Tudo que eu quero é estar na tua presença,

De ti não me afastar jamais.

 

126 

Em aperto vivo dias contrários.

Sinto-me dentro de um calabouço.                  

É tão profundo este poço,

Ah, como eu estou solitário!

 

127

Gemo de tanta tristeza

E choro por detrás da colina.

Pensando em você mulher, menina,

Sou teu súdito, minha alteza.

 

128

A saudade como traça me corrói,

Consome-me, mata e dilacera.

Tal qual horrível fera

Suga-me e me destrói.

 

129

Querida, ainda estou apaixonado por você.

Não me esqueço de um só momento.

E tem perdurado este sentimento,

Pois me recuso te esquecer.

 

130

A saudade é cruel e cortante.

Faz-me gritar dizendo: “Volte

E abre no meu peito com um golpe,

Qual afiado diamante”.

 

131

Estou sozinho em nossa cama,

Tenho a dor como companhia.

Sinto tristeza todo dia,

Por aquela a quem minh’alma ama.

 

132

Nada de ti me afasta.

Meu gemido é almático e corpóreo                                                                   

Choro debaixo do verde arbóreo,                    

Aqui nesta sombreada mata.

 

133

Está enferma a minha alma,

Pela dor que me acorrenta.

Perder-te foi como tormenta

Que abala o mais perito nauta.

 

134

Querida,tivemos lindos momentos.

Mas a noite chegou, não há mais dias.

Lembro-me das vezes que te ouvia,

Declarar-me teus sentimentos.

 

135

Já cessou o brilho no meu olhar

E o sol se declina por trás do monte.

É tão escuro o meu horizonte...

Então me ponho a chorar.

 

136

Senhor, tu és a minha esperança.

Esta jamais será malograda.

Estou com a alma tão magoada

E não passo de uma criança.

 

137

O meu estado é de morbidez.

Estou como o ferido de morte.

E esta dor que é de alto porte.

Revela assim a minha languidez.       

 

138

A vida que almejo não me vem.Demora.

Chego a adoecer de tanta saudade.

Querida, onde habitas não há maldade.

Estou ansioso para ir embora.

 

139

Minha noite já é escura,

Aflito aguardo o amanhecer.

Senhor, não me deixe perecer.

Livra-me neste vale de agruras.

 

140

Quando daqui eu partirei Senhor?

Deixa-me estar pertinho dela!

Amo a ti, mas amo também ela,

Desejoso estou pela minha flor.

 

141

Estou acorrentado, com pesadas cadeias

O Inimigo diz: “Acabou! É seu fim!”

Mas tu dizes olhando para mim:

Lembra-te Eu te livro do mal que permeia.             

 

142

“Olhai para mim e sede iluminado

Eu sou o Senhor da luz.

Tua vitória conquistei na cruz

E estou sempre do teu lado”.

 

143

“Escolhi-te entre pedras sujas.

Friccionei-te até ficar brilhante,

És para mim tal qual diamante.

Cujas pedras sobrepujas.                                      

 

144

O Inimigo me ataca e não descansa.

Com sua ação mui ferina

E sua peçonha viperina.                          

Mas a mão do Senhor me alcança.

 

145

E esta dor que não quer cessar...

Tão resistente quanto apenha.                 

Mas antes que a morte me venha

Tua destra há de esmiuçar.

 

146

Sei que não vais me esquecer,

Mesmo eu lançado no monturo.

Sei que tens para mim um futuro

E minhas forças vais refazer.

 

147

Tu és o Deus sempiterno,

E eu apenas um rabisco.

Não passo de um apagado risco,

Nas brancas folhas de um caderno.

 

148

Posso até estar lançado no solo,

Mas tu habitas nas alturas

E nós, que somos simples criaturas,

Ainda assim nos leva em teu colo.

 

149

Sei que a terra é o meu lugar,

Pois dali eu fui tirado.

Por tuas mãos fui amassado,

Para na tua galeria eu estar.

 

150

Estou com a alma amargurada,

Sou como o atribulado de espírito.

Meu rosto tão explícito

Expõe uma dor desmascarada.

 

151

Não sei Senhor, o que tu vês em mim.

Não sou nada.Simplesmente um resto.

Enquanto penso que não presto,

Tu me amas mesmo assim.

 

152

Já me armaram até armadilhas,

Os terríveis agentes do inferno.

Mas tu és o grande Deus eterno,

E livra-me de malévolas trilhas.

 

153

Tu disseste que jamais morrerei,

Pois estou enxertado na vida

Por meio das tuas feridas

E ali na glória eu estarei.

 

154

Sonho com o céu todo dia.

Lá mudarás a minha sorte,

Onde não há dor e nem morte,

Ali só há canto e alegria.

 

155

Quando o dia raiar para mim,

Sairei desta noite escura.

Minha esperança já tão obscura,

Brilhará intensamente, por fim.

 

156

Já não serei como o vento que passa,

Nem como o dia que cessou,

Nem como algo que não perdurou.

Já não serei vazio e sem graça.

 

157

Pois sei Senhor que tu me estimas,

Ainda que nada tenho a oferecer-te.

Não me deixarás perecer,

Pois meu caminho é para cima.

 

158

Perdoa-me Senhor,pois ainda choro por ela.

Ando por este vasto terreiro,

Nela pensando o dia inteiro.

Pranteei no pé daquela janela.

 

159

Naquele dia dei o último adeus.

O choro expressava minha dor.

Ah, como preciso desse amor,

Já sepultei os sonhos meus.

 

160

Eu também morri contigo.

Já desabou a minha tenda.

Mas querida, peço, me entenda!

É que fiquei sem teu abrigo.

 

161

Lágrimas deixam rastros no meu rosto

Eu gritei: como estou tão ferido!

Procuro, já não acho teu ombro amigo,

Como é grande o meu desgosto.

 

162

Agora estou sem ti, ando sozinho.

Não estais aqui por perto,

E eu nesse grande deserto

Sou como pássaro sem ninho.

 

163

A dor me parte, me dilacera.

Então eu grito, volta pra mim!

Não, não digas que é o fim.

Tu és minha eterna paquera.

 

164

Sou um Jacó sem sua Raquel

Tal qual José sem Benjamim.

Também deixaste pra mim

Verdadeiras jóias do céu.

 

165

Querida, como eu te amei...

Mas tão pouco foi o tempo

Passou rápido como o vento

O porquê de tudo isso não sei.

 

166

Pergunto: será isso um sonho?

Será tudo isso verdade?

E essa tamanha saudade?!

Pensar nisso me ponho.

 

167

Sei que eu não te merecia,

Sei que tu és tão preciosa

Que de maneira tão gloriosa

Deus há muito te queria.

 

168

Mas louvado seja meu Senhor,

Pois tem me feito corajoso.

Para não agir como medroso

Em meio à tamanha dor.

 

169

Por tua ausência estou sofrendo.

Por que... Porque fostes embora,

Querida? Como fico agora?

Eternamente te querendo.

 

170

Ah, meu querido Senhor!

E se não fosse a tua mão,

Segurando meu frágil coração,

Como resistiria essa dor?

 

171

Pergunto-me o que seria de mim,

Se não fora a mão do Senhor

Que minha força renovou.

Sei que seria meu fim.

 

172

Minha alma está tão ferida!

Solto grandes gemidos

Ando um tanto deprimido

Como é difícil essa lida.

 

173

Teu sorriso está na minha memória,

Que pra mim é um encanto.

Mas hoje sofro e me espanto.

Com o final dessa história.

 

174

Meu grito ecoou. Estou trêmulo!

Agora cessou o meu canto.

Conheço apenas o pranto

Meu coração é tal qual pêndulo.

 

175

Falo como o poeta sacro falou:

“Volta amada minha

Pois grande alegria eu tinha

Envolvido no teu amor”.

 

176

Oh, meu amado General

Estou tão ferido em batalha.

Perdoa minha grande falha,

Tira-me dessa zona mortal.

 

177

Quero tuas asas de proteção.

Não estou bem nesse embate.

Guarda-me deste cruel combate,

Protege-me com tua forte mão

 

178

Dá-me do teu refrigério

Eme pega em teu braço

Onde minhas forças refaço.

Livra-me deste terrível império.

 

179

Sinto dela tanta saudade...

Eu quero mesmo é estar com ela.

Tira-me desta procela,

Deste mar de maldade.

 

180

Nosso amor não terá fim.

Um dia eu estarei indo

E quero te ver sorrindo,

Bem pertinho de mim.

 

181

Deus, livra-me desta dor.

Senhor, vem e me socorrer!

Como alguém que logo corre

Para livrar seu grande amor.

 

182

Falou o sábio salmista,

Assemelhando-se ao pardal solitário

E eu já não tenho itinerário.

Assemelho-me também a esse artista.

 

183

Solitário como aquele pardal,

Bem lá em cima do telhado.

Sentindo-me todo orvalhado

Em uma tristeza mortal.

 

184

Senhor é por isto que a ti clamo,

Tira-me desta negra terra.

Já não suporto está guerra,

Perdoa-me quando assim te chamo.

 

185

A dor que me faz gemer

É a falta da minha amada.

E nessa agonia danada

Aprisiona o meu ser.

 

186

Vem Jesus, fortaleza minha,

Carrega-me em teu colo.

Estou lançado ao solo,

Por uma dor que eu não tinha.

 

187

Meu Deus que saudade cruenta

Que aos poucos me corrói

E minha força destrói!

Meu coração já não aguenta.

 

189

Só tu és o grande Deus.

Sei que podes me alentar

E me fazer descansar

Nos grandes braços teus.

 

190

Hoje olho em volta de mim.

Estou num mar de solidão.

E nesta vasta imensidão,

Parece até que é meu fim.

 

191

A tua morada vai me enlevar.

Eu sairei desta terra inóspita.

Que não é sequer a cópia

Da Terra que vou herdar.

 

192

Há na minha carne dormência,

Pela dor que me traspassa.

Já não sei guando isso passa,

Matando assim a minha existência.

 

193

Estou prestes a descer à cova.

A dor torna meu corpo inerte.

Vem, Senhor, com teu azeite e verte.

Tira-me desta horrenda prova.

 

194

Não desejo espinho, desejo somente a flor.

A dor torna meu corpo contorcido.

Sei que de Deus não estou esquecido,

Mas sinto que algo me amarrou.

 

195

Tu tens me posto no deserto,

Mas tem me dado do teu maná.             

Deus semelhante a ti não há,

Sei, sempre estarás bem perto.

 

196

Tenho estado na tua sombra

E sacias-me com a água da rocha.

Contigo não há quem possa,

Por isso abrigo-me na tua sombra.

 

197

Disse o salmista: “Tu me sustem com o trigo fino.

Também me sacia com o mel.”

E eu, senhor, muito desejo o céu

Por isto é que para ti atino.