10 - RAIMUNDO BATISTA
10 - RAIMUNDO BATISTA

Um Batista em Cuba

Raimundo Batista, um dos filhos mais velhos de Joaquim Batista e sua primeira esposa Honorina Feitosa, era apenas uma criança quando perdeu sua mãe em sítio Piranhas. Ele nasceu em Julho de 1923. Considerando o número elevado de crianças no período da viuvez de seu pai Joaquim, seu padrinho, Pedro Supriano, insistiu bastante com o compadre para que o menino ficasse sob seus cuidados e passasse a morar com o mesmo em Patu-RN. O casal de compadres não tinha filhos. Havia muito respeito e consideração no apadrinhamento. Os padrinhos agiam como os segundos pais. Avaliando o bom relacionamento entre as famílias não havia motivos aparente para traumas dado o distanciamento da família biológica. Raimundo não se sentia rejeitado; mas amparado.

O compadre Pedro era uma pessoa muito educada e um tanto abastado, financeiramente. Raimundo passou a morar com ele na cidade de Patu.

O padrinho tratou logo de assegurar a firmeza de caráter de seu afilhado, bem como proporcionar-lhe a melhor forma de estudo escolar, que, infelizmente por força das circunstâncias, não foram completados, no entanto, foi o suficiente para lapidar um pouco esse Batista em relação aos demais. Isso tornou Raimundo uma pessoa bastante comunicativa, inteligente, educada, desenvolta e com sede por conhecimento, o que o buscou nos livro de maneira autodidata, os quais passaram a fazer parte de sua estante particular. Raimundo nutria grande interesse por suas aquisições didáticas e paradidáticas, tinha extremo zelo pelos mesmos.

Ocorrido alguns anos a família adotiva veio de mudança para sítio Piranhas, não se sabe ao certo o motivo, onde os mesmos passaram a viver da criação de animais e agricultura.

Raimundo levava a vida dentro da normalidade do lugarejo. Nos fins de semana costumava passear nos sítios vizinhos.

Em um desses sítios moravam três moças órfãs de mãe, criadas por seus avôs. Uma delas se chamava Adalda Etelvina, conhecida apenas pelo curto nome de “Dadá”, neta de João Teodósio, do sítio Três Altos, localizado entre Lucrécia e Almino Afonso, Rio Grande do Norte.

Tereza Batista foi quem primeiro conheceu a família de Dadá. Quando criança as meninas brincavam juntas. Por meio dessa amizade se deu a aproximação entre Raimundo e Dadá, bem como entre o irmão de Raimundo, José Batista, e a irmã de Dadá apelidada de “Baiana”. Mais tarde esse casal seria de grande ajuda na vida de Pedro Batista e os filhos, quando este também enviuvou. Ficando assim, casados, dois irmãos com duas irmãs. Raimundo e Dadá casaram-se em 1945 e passaram a morar em Piranhas. Ali o casal teve sete filhos.

Raimundo conheceu a palavra de Deus por meio da pregação de alguns pastores. Nessa ocasião “aceitou Jesus”, tornando-se evangélico e um exímio conhecedor da Bíblia.

Em 1959, atraído pelas muitas possibilidades de emprego na construção de uma nova cidade, denominada Brasília, na região centro-oeste do Brasil, Raimundo, que morava nas brenhas da região nordeste, resolveu aventurar-se para ser também, de alguma forma, um construtor daquela que seria a nova capital de seu país.

A primeira capital do Brasil era sediada em Salvador, Bahia, entre o período de 1549 e 1763, inicialmente projetada para ser transferida em 1763 para o Rio de Janeiro, sendo concluído esse intento em 1822, onde permaneceu até 1960.

Mais de um século depois tomou a incumbência em suas mãos o então presidente Juscelino Kubitschek de construir uma nova capital, tendo à frente os imprescindíveis projetistas Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Saindo laboriosamente do papel a cidade capital do Brasil foi inaugurada de maneira incompleta, em abril de 1960.

A família de Raimundo ficou em Piranhas, ele veio buscá-la no ano seguinte.

Em Brasília Raimundo fez muita amizade com aficionados da política e passou a frequentar o diretório do partido à época denominado MDB (Movimento Democrático Brasileiro), organizado no final de 1965, partido este que mais tarde mudaria sua sigla, por duas vezes, tornando-se o PMDB e depois voltando novamente a ser MDB. Em 1980, o partido se renovou e surgiu novamente o PMDB e dando origem a outras legendas.

Nesse período havia apenas o bipartidarismo político. O MDB era um partido de oposição ao partido governista, ARENA (Aliança Renovadora Nacional).

Sua desenvoltura e capacidade de transitar entre alguns tipos sociais da política e de debater a respeito de vários assuntos, chamou a atenção dos companheiros e Raimundo passou a ser uma pessoa benquista e solicitada nas reuniões.

Em contato com pessoas razoavelmente intelectuais, racionais e materialistas, Raimundo foi mudando suas crenças e passou a ter muitas dúvidas em relação à Bíblia, vendo constantemente contradição nas Escrituras Sagradas decidiu colocar suas convicções na ciência. Seu afastamento se deu também, motivado, segundo a visão de uma filha, por considerar demoradas as respostas de Deus ante sua atribulada vida.

Em 1966 Raimundo Batista muda-se com toda a família para São Paulo, lá ele dá continuidade às reuniões partidárias. Seu relacionamento conjugal se abala e ele passa a ter um casamento tumultuado, envolvendo brigas, ciúmes, discussões e desentendimentos. Com dois anos morando em São Paulo veio a separação. O casal chega à conclusão de que o melhor para ambos é mesmo o divórcio.

Raimundo considerava Dadá seu grande amor, porém já não havia compatibilidade entre ambos. O casamento durou 23 anos o casal teve 10 filhos, quatro morreram.

Um desses filhos envolveu-se com drogas, fora assassinado à arma de fogo, uma filha, adulta, morreu acometida por depressão. Outro filho, dentre os mais velhos, casou-se, separou-se da esposa e veio morar com a família. Como era pessoa de gênio forte não se dava com os familiares, a família tomou a decisão de alugar uma casa aproximadamente uma hora distante dos demais, já acomodado ele vinha sempre visitar os parentes. De certa feita houve muita demora em sua vinda. Estranhando a família entrou em contato com o proprietário da casa onde ele morava, o mesmo foi até a residência. Em chegando lá logo percebeu que exalava de dentro da casa um forte odor de putrefação, apreensivo o proprietário adentrou e infelizmente encontrou seu inquilino morto no banheiro após sofrer um ataque epilético, possivelmente, e bater a cabeça no vaso sanitário. Segundo os cálculos da própria família ele já estava morto há 10 dias.

São sete os filhos vivos atualmente: Gildeíde, Eudi, Jovaneide (Neide), Cleusa, Josélia (Zélia), Rubens e Vladimir Lênin (“Leninho”), filho de outro relacionamento de Raimundo em um período de separação, supostamente, entre ele e Dadá.

Em 1983, com filhos todos casados, estando ele divorciado, Dadá encontrava-se morando em Brasília com uma de suas filhas, Raimundo começou a frequentar a casa de Seu primo Pedro Alves em Goiânia, no Goiás, de começo apenas o visitava. Esse primo era como um irmão, uma pessoa muito acolhedora que sempre o recebia com a melhor acolhida possível. A princípio eram apenas visitas esporádicas onde ele passava dias em companhia do referido primo. Raimundo se dividia entre a casa de seu primo em Goiânia e a residência de seus filhos em São Paulo. Chegou o momento em que Raimundo passou a morar definitivamente com a família de Pedro Alves.

Pedro conta do quanto Raimundo era inteligente, comunicativo e cheio de vida. Amava passear, divertir-se e dançar nos bailes de “melhor idade”. Tinha bom número de amizade, sempre cercado por pessoas que lhe eram queridas. Porém, em meio a isso tudo Pedro passou a espantar-se, e muito, com seu primo, pois o mesmo demonstrava muita incredulidade e extrema dureza de coração em relação a Deus. Pedro sempre perguntava a si mesmo o porquê de tanta mudança efetuada ao longo dos anos em seu primo, que para ele havia muito perdido sua essência espiritual de tempos de juventude. O que mais o assombrava era a mudança radical, considerando que Raimundo fora defensor entusiasta da palavra de Deus. Agora ele contestava as ações do Senhor.

Em 1985, segundo consta o registro dessa data em fotografias, Raimundo foi designado pelo partido, MDB, junto com um grupo, tendo todas as despesas pagas pelo diretório para uma visita a Havana, em Cuba. Infelizmente com a morte de Raimundo todos os detalhes foram também sepultados com ele. Tudo é muito incerto quanto ao objetivo do grupo em Cuba. Segundo uma das filhas, Eudi Batista, o pai dela fora um dos palestrantes da caravana visitante.

Pensa-se que o interesse era relatar a impressão da administração socialista, que, mesmo sofrendo embargo dos Estados Unidos Cuba conseguia certo destaque na medicina, na área da saúde, de modo geral, e na educação, salvo alguma propaganda governista ilusória. 

O sonho de Raimundo era conhecer Fidel Castro, o que não se deu pessoalmente, de viva voz, mas, jurava ele que ao ser efetuado o transporte do grupo brasileiro de um prédio institucional a outro, Fidel Castro embarcou junto, isso após a acomodação da caravana no ônibus, reservado exclusivamente para aquele fim. Todos ficaram petrificados com a presença do líder, sem nada dizer. Parece duvidoso que um chefe de Estado como Fidel pudesse transitar, aparentemente, de maneira tão livre. Mas, Raimundo afirmava convicto de que assim fora.

Raimundo chegou a tirar muitas fotos. Apareceu, não só na piscina do hotel, como também com amigos, aparentemente, na escadaria do Capitólio de Havana, defronte ao Palácio Presidencial, bem como em frente a prédios históricos.

Vale lembrar que antes de Fidel Cuba era governada pelo governo ditatorial de Fulgêncio Batista, um ex-militar que assumiu o poder através de um golpe de Estado, apoiado pelos Estados Unidos. Batista, porém, instalou um regime corrupto e violento.

A partir daí o advogado Fidel Castro se rebelou contra a influência dos Estados Unidos e do governo de Fulgêncio derrotando-os em 1959 por meio da famosa Revolução Cubana, tendo por companheiro o inseparável e fiel Che Guevara. Não diferentemente do ditador Fulgêncio Batista, a ditadura de Castro passa a ser uma das mais sangrentas, levando o povo a fugir da ilha, buscar exílio ou morrer tentando.

Enquanto digitava a história de Raimundo fui tomando conhecimento, ao mesmo tempo, de informações a respeito do estado de saúde de Dona Dadá. Ela ainda encontrava-se em Brasília em companhia de sua filha que a cobria de cuidados. Porém, Dadá tinha apenas cinco a dez por cento, intercalados, de lucidez, devido a ação do Alzheimer.

Aos 84 anos, morando com seu primo Pedro, Raimundo sofre um grave AVC. Passa 15 dias internado. Sua boca ficou defeituosa. Ele falava de maneira inteligível, no entanto ouvia bem e compreendia tudo.

Em uma de suas visitas, Pedro Alves, que era “quase evangélico”, um homem de fé, embora não frequentasse uma igreja, prega a Palavra de Deus para Raimundo. Ele fala:

- Raimundo, pense no Deus que fez o mundo, que fez o ar que você respira. Peça perdão a Ele. Perdoe alguma pessoa. Raimundo levantou o braço que podia e fez sinal “positivo” com a mão. Faleceu poucos dias depois, em maio de 2007. Não se sabe se ele acatou o conselho de seu primo de todo o seu coração. O que sabemos é que a ciência a quem Raimundo, ultimamente, muito confiava nada pôde fazer por ele.

Antes de concluir a biografia de Raimundo Batista tomei conhecimento de que “Dadá Etelvina Batista da Silva”, sua ex-esposa, sofrera um pequeno acidente no banheiro da casa de sua filha, Gildeíde, apelidada de “Moleca”, referência, possivelmente, às suas peraltices de infância, com quem a mãe morou por vinte longos anos. Dadá sofreu uma queda e quebrou o fêmur. Após vinte dias internada, sem condição para cirurgia, não resistiu, e partiu aos 91 anos (2018).

 

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