11 - BRAZ ALVES
11 - BRAZ ALVES

Um herói lutador.

Lourenço fazia parte dos irmãos mais novos de Braz. Seus pais eram Manuel Ernesto e Francisca Batista. Por ser o menor era meio visado. Braz perdeu o pai em 1940, três meses depois perdeu a mãe, em 1941. Ele estava com quinze anos. Tinha uns dezesseis quando certa tarde ao aproximar-se de casa, vindo do bebedouro, local onde se colocava o gado para beber água, presenciou uma discussão por parte de Diomédio, seu irmão mais velho, que ameaçava surrar Lourenço, este sempre apanhava muito, conforme depoimento dos mais velhos. Segundo meu tio Braz, Diomédio os castigava por quase nada, sempre perdendo a calma.

De longe Braz ouviu os gritos. A princípio ficou sem entender. Chegando mais perto pôde ouvir melhor e compreender que se tratava, mais uma vez, de Lourenço e ele correu para acudir o irmão. Isso vinha se acumulando em seu coração, fazendo-o sofrer muito e cansar-se com esse tipo de ocorrência.

Uma criança entre sete e oito anos, sem camisa, sendo açoitado por um “homem feito”, que o fustigava com um chicote de couro endurecido e quando o chicote batia nas costas da criança, dependendo da força aplicada, o sangue aparecia.

Braz agarrou-se com Diomédio, embolaram-se pelo chão, indo parar dentro de um chiqueiro onde se sujaram de esterco, ante os gritos de alguns.

Nesse instante chega a casa Manoel Batista, tio dos três, que separou a briga e quis saber o porquê da confusão. Separado de Diomédio, Braz decretou:

- Amanhã eu não durmo mais nessa casa!

Diomédio respondeu:

- E para onde você vai?! Você lá tem para onde ir! Rebateu duvidando. Você pensa que o mundo tem o que dar?! Desafiou Diomédio.

- O mundo não tem o que dar para quem não sabe viver. Eu tenho pena mesmo é dessa criança. Falou Braz.

Seu irmão mais velho em nada acreditou. Nem considerou a firmeza e a convicção plena formadas no caráter daquele pequeno grande homem, que de franzino só tinha a compleição física distribuída em sua miudeza de menino.

Dormiam todos na sala, e em redes. Às quatro horas da manhã Braz levantou-se, desarmou a dele e intentou partir. Quando estava guardando a rede Diomédio acordou e quis saber:

- Para onde você vai a essa hora, “Neném”? Tratando meu tio pelo apelido outrora carinhoso.

- Não sei. Deus é quem sabe. Respondeu-lhe Braz.

Essa declaração passou a ser confirmada em cada situação da vida. Deus se compromete, misericordiosamente, com quem confia nele e passou a guiá-lo. Deus cuida dos órfãos, nos diz a Bíblia.

Enquanto eu transcrevia a gravação para o papel, meu sobrinho mais velho mostrou-se admirado com a personalidade desse meu tio. Perguntou-me se hoje em dia existem adolescentes com uma personalidade dessas, com tanta firmeza de caráter. Também se espantou com a severidade do irmão de Braz. Eu expliquei-lhe que tudo isso faz parte do passado embora todos tenham tido sua cota de afetação psicológica.

Também lhe falei sobre gente que ao saber dessa minha pesquisa junto à família, estranhou com desdém. Achou que eu estava mexendo em algo muito doloroso, e que por isso mesmo deveria ficar no passado.

Em relação a tio Braz, ele não se mostrava rancoroso, nem condoído. Inclusive, gostava de contar suas histórias. Na verdade todos tinham sido brutalmente afetados, pela perda dos pais, pela dureza da vida.

Decorridos tantos anos, um ou outro, ao contar essas histórias emocionava-se. Alguns até choraram. As feridas continuavam abertas. O tempo não as fechou completamente, a despeito dos anos. Talvez Diomédio devesse ter tido uma conversa com esses irmãos, lá atrás, pedir perdão. Eu mesma fui covarde quando o visitei. Pois desejava ter lhe falado sobre essa carga de sentimentos, porém não o fiz.

Com certeza Diomédio deve ter tido um histórico psicológico que o levou a agir dessa maneira, e que, se não justifica, pelo menos ameniza.

Meu tio Braz juntou seus poucos pertences: duas mudas de roupas, contando com a que estava no corpo, sua rede, feita por sua mãe, e um couro de teiú, que vendido financiaria, um pouco, sua viagem sem rumo. Ele costumava narrar entre risos: “Era pobre de dar dó. Minha mala era um saco, o cadeado era um nó”. Ele dizia que se queimasse tudo quanto ele tinha, naquele tempo, daria uma colher de cinza.

Resolveu partir completamente sem noção de seu destino. O mundo era para ele em extremo fechado, só conhecia Almino Afonso, Lucrécia, Patu... Cidadelas circunvizinhas, no Rio Grande do Norte. Não sabia para onde ir. Sua vontade era maior do que seu medo.

Diomédio voltou a insistir:

- “Neném”, para onde você vai?!

- Eu disse ontem para onde eu ia. Vou tentar desenrolar minha vida por aí... Respondeu Braz.

Nisso acordou-se Lourenço e Luíza. Quem sabe eles pensavam: “Meu salvaguarda está indo embora”. Foi uma despedida triste. Ele lamentava ter que deixar os irmãos, e tornou a afirmar isso para Diomédio, falando que este se irava por qualquer coisa e descontava neles.

Nessa hora ele ficou embargado pelas emoções. Com os olhos cheios de lágrimas apontou para meu pai, João, que ia passando e disse:

- Só teve um que não sofreu: foi esse aí. Foi criado com o maior dengo, ainda engatinhava quando foi levado pelo tio. Eu o olhei no fundo dos olhos e sei que ele viu lágrimas nos meus por traz dos óculos.

Seu irmão Diomédio contra-atacou:

- Você vai embora nada! Você vai é para a casa de tio “Ciço”, em Belém. Logo, logo você estará de volta.

- Posso até voltar, mas lhe garanto que não é essa minha intenção.

Era 11 de março de 1942, quando Braz foi embora. Antes resolveu passar no sítio “Casa da Raposa”, propriedade de Vicente Holanda, seu padrinho abastado. A caminho do curral, acompanhando seu padrinho em uma atividade, contou tudo o que aconteceu e de como estava indo sem destino. Seu padrinho afirmou que ele não ia a lugar nenhum, mas passaria a morar com ele. Lembrando-se do que dissera ao irmão, Braz rejeitou veementemente.

Seu padrinho entendeu que ele fora ali atrás de algo mais que uma bênção e lamentou por estar completamente “desprevenido”, sem dinheiro. Voltou para dentro arranjou uma mochila de pano, colocou dentro uma lata de farinha e uma rapadura, alegando que quando ele estivesse com fome comeria, beberia água e assim sobreviveria.

Em Patu vendeu o couro de teiú. Ás cinco horas da tarde chegou a Belém, na casa de tio “Ciço”, que criava João, seu irmão caçula. Seu tio falou que dali ele não passaria e ele novamente negou-se a ficar. Apenas aceitou pernoitar.

A noite caiu uma tremenda chuva. Os relâmpagos cortavam os céus, os trovões não lhe assustavam tanto quanto o destino desconhecido que teria de enfrentar. O barulho das gotas de água nas telhas o deixava pesaroso. Muito mais a preocupação por seus irmãos que ficaram para trás. A saudade já ardia em seu peito. Remexeu-se na rede por várias horas até adormecer.

No dia seguinte madrugou, mas não pôde prosseguir. O rio Piranhas que ficava nas proximidades havia transbordado, impedindo passagem, obrigando-o a dormir na casa do tio outra noite.

Seu tio foi até a despensa, retirou de lá um grande pedaço de carne de ovelha e entregou-lhe, junto com um prato, uma colher e uma panela.

Não muitos metros da casa estava o rio que descia calmo em seu leito repousante, uma vez que não tinha chovido mais. Em sua ribeira o burburinho anunciava a satisfação do povo. O mato em volta recebia os raios de um sol ameno. Um suave vento balançava cada galho que já havia enverdecido, sem, contudo, levar para longe o agradável cheiro de terra molhada. Um pedaço do Nordeste saltitava vivo, em todas as direções.

Havia um movimento de ida e vinda de pessoas atravessando o rio em pequenos barcos. Braz encarou o rio Piranhas que descia veloz. Era preciso empreender dupla travessia, a primeira iniciada dentro de si mesmo, quando tomou a decisão de sair de casa.

Reconhecia que o passo mais difícil ele já havia dado. O rio não era páreo para detê-lo.

Eram sete horas da manhã. Não havia se alimentado ainda. À margem do rio havia uma barraca que se intitulava de “lanchonete”. Ele sentou-se, pediu café com leite e pão.

Quando estava tomando o café parou em frente dele uma camioneta e desceu dela um homem que portava um revólver na cintura. Era “doutor” Segundo, filho do Major Marinheiro Saldanha. Ele havia estado em casa de Braz certa vez, e o reconheceu:

- Eu já lhe vi... Disse o homem.

- Já. Eu posso até estar enganado, mas você é o doutor Segundo. Falou Braz para o homem que confirmou.

- O que você está fazendo aqui?

- Eu estou indo... Sem rumo...

- Você vai morar comigo e minha família.

- Vou não, senhor. Negou Braz.

- Mas não sofre por aí não. Se isso acontecer sabe onde me encontrar. Eu estou indo até Jardim de Siridó. Quer uma carona?

Quando chegou a Siridó tomou um carro para Parelhas, antes havia dito ao doutor Segundo que seu destino era mesmo Campina Grande, na Paraíba, pois ouvira falar maravilhas desse lugar.

O transporte que o levava agora era um caminhão, um velho Chevrolet, cabine dupla, de madeira. Ele subiu na carroceria. O motorista parecia desesperado para chegar, tamanha a velocidade. Desavisado, Braz ficou em pé e logo perdeu o chapéu e uns botões da camisa.

Não bastasse o excesso de velocidade começou a chover. O vento açoitava sua pele e passava pelos ouvidos zunindo.

Logo adentraram a pequena cidade. O caminhão foi estacionado defronte a igreja. O motorista ainda zombou, fazendo piada:

- Viu que camarada corredor?

- E você viu que camarada duro de morrer! Por que nessa velocidade você estava doido para me matar. Respondeu Braz.

Aproximou-se de uma barbearia e quis saber onde ficava a saída para Campina Grande. Era quase noitinha e ele percebeu que estava encharcado. Decidiu que melhor era passar a noite ali. Aproximou-se de um senhor idoso e o interrogou:

- Gente boa, o senhor mora aqui? Ante a afirmativa pediu uma dormida, no que foi atendido. Pois era assim que se davam as coisas a mais de meio século atrás. As pessoas eram de boa índole, uns confiando em outros e ajudavam uns aos outros, não se pensava em fazer mal ao seu semelhante, a violência e os roubos eram raros naquela região.

Após a janta ficou na calçada ouvindo o pessoal jogar conversa fora. Prosa vai prosa vem, tomou conhecimento de um excelente lugar para se trabalhar, era em uma mina que ficava a seis léguas distantes dali e pertencia ao senhor José Ginani, dono também de uma fazenda que ficava à beira do rio São Bento.

A mina era de xelita, um tipo de minério branco, muito duro. Chegando lá ficou admirado com o que viu. A força bruta empregada no sacrifício para encontrar o tal minério era sobre-humana. Homens socavam um pilão pisando o tal material utilizando uma peça velha de ferro de caminhão conhecida como semieixo.

Havia muitas barracas que vendiam lanches e almoço.

Braz, com sua mochila nas costas seguiu adiante e logo, para surpresa sua, deparou-se com mais um conterrâneo, que se mostrou igualmente surpreso com sua chegada naquele lugar distante, e logo o informou das possibilidades de serviço: carregar restos de cascalho em um carrinho de mão, e este tinha roda de ferro, mas ninguém conseguia permanecer por muito tempo na função, dado o trabalho extremamente pesado.

O encarregado da obra duvidou, a princípio, que aquele rapazote, de tivesse condição de executar a tarefa, pois homens com tipo físico mais fortalecido não dera conta, imagine esse rapaz novinho, baixo e meio magricela.

Braz insistiu com o encarregado, pois precisava ganhar dinheiro, e ante a disposição dele o chefe de obra resolveu dar uma chance a título de teste.

Ele tratou de iniciar o serviço imediatamente. Estava ansioso para mostrar disposição. Sua força consistia no entusiasmo ao pensar no primeiro salário que receberia fora de casa. Trabalhou muito, incansavelmente. Lá pelas onze horas da manhã todos pararam, ele continuou firme, era preciso livrar-se de todo o entulho da xelita. Continuou a fazê-lo.

A noite empenhou-se em não deixar pedregulhos, sobras das escavações, na “banqueta”, espécie de cratera que vai se formando à medida que se escavam as paredes da mina. Limpou-a bem e seu venerável, o encarregado, expressando grande admiração o cobriu de elogio afirmando: “Esse menino é um homem!”.

Final de semana a “peãozada” toda se reuniu para receber o pagamento, o que foi feito a cada um, menos a Braz, que ficou com um misto de desconfiança e decepção. O encarregado deixou para pagar a ele lá no vilarejo, onde os peões gastava seu suado dinheiro, primeiro com a feira da família, depois com a costumeira “pinga” que causava algazarra e alívio momentâneo àquelas sofridas vidas.

Braz temeu. O que teria acontecido? Teria ele decepcionado o encarregado? Seu coração estava sobressaltado. Talvez o chefe o demitisse... Pior quando o chefe disse que ele fosse até a casa dele, que ficava perto da igreja.

Meu tio, obedecendo, foi até lá, e teve uma surpresa agradável. O encarregado lhe disse que costumava pagar ao trabalhador pelo seu devido esforço, não com base em uma mera diária. Ele afirmou que o observou o tempo todo, via seu esforço, inclusive de como ele continuava a trabalhar enquanto todos paravam e de como ele deixava a banqueta de forma extremamente desentulhada. O chefe enfiou a mão no bolso e pagou em dobro a Braz que ficou boquiaberto, mas ouviu dele muitas recomendações que a ninguém nada dissesse.

Tempos depois o dono da mina resolveu vendê-la para uns americanos e o pessoal foi dispensado, porém, Braz ficou vigiando umas ferramentas por uns dias e o encarregado, no final, lhe dera um monte de pedregulho que continha bastante xelita miúda. Isso lhe rendeu uma boa quantia em dinheiro. Braz pensava em ir para uma mina em Currais Novos. Seu patrão recomendou distância de lá, devido epidemia de febre amarela e o dono da mina lá era uma pessoa fria e indiferente com seus funcionários. Quem adoecia e tinha um parente que cuidasse dele, estaria quase salvo, quem não tinha ficava à mercê da própria sorte, como se diz. Todo mundo sabia da quantidade de defuntos que era trazido de lá.

Seu Venerável insistiu para que Braz fosse morar com ele e sua família. Braz aceitou. Seu patrão só tinha uma filha adotiva, apelidada de “Nevinha”. Os dois muito se afeiçoaram e a amizade ficou muito forte entre ambos, como se fossem dois irmãos.

Braz era muito responsável. Às cinco da manhã, quando a esposa de seu venerável acordava já encontrava alguns potes, pequenos tanques e gamelas completamente cheias de água, sem nunca ter pedido isso. Tinha diversos compromissos, entre os quais o de tirar o leite de algumas vacas e cabras. Certa vez foi a uma festa, e lá pela madrugada seu patrão afirmou para sua esposa, que teria que acordar cedo para tirar o leite, pois sabia que Braz chegaria muito tarde e não poderia fazê-lo.

Quando seu venerável levantou Braz já havia chegado, tirado o leite e começara a labuta como se não tivesse perdido uma noite de sono.

Algum tempo depois conheceu duas irmãs que também o tinham em grande estima. Não faltou quem achasse que ele namorava as duas trazendo-lhe certa confusão. Inclusive, o irmão delas jurou matá-lo, pois achava uma “safadeza” Braz namorar as duas. O que não era verdade. Isso o fez tomar a decisão de ir embora.

Seu Venerável ficou espantado com a decisão de Braz e acreditava nele completamente, pois conhecia a integridade de seu funcionário. Ele preparou as contas de Braz e ele foi embora depois de passar seis meses naquele lugar.

Tomou um caminhão para Patos, na Paraíba.

Chegando a São Mamede “algo” lhe falou em seu coração: “Braz, fica aqui”. Ele ficou, sentindo-se ainda meio deslocado. Era o ano de 1947.

Um pouco distante de onde ele tinha descido notou um ponto comercial, que tinha um bom movimento. Rumou para lá. Mas não entrou de imediato. Parou uns segundos e ficou a observar, com o olhar absorto. Foi despertado por alguém que dava “psiu” e acenava com a mão. Braz ficou curioso, olhou para traz e pensou: “Será que é comigo?”. Resolveu aproximar-se. O senhor que o chamava era já de idade, tinha cabelos extremamente brancos. Quando chegou perto o tal senhor quis saber o que ele procurava. Braz respondeu que trabalho. Depois ele ficou sabendo que o senhor era proprietário de quase todo o quarteirão da rua da cidade e de um hotel, e este levou seu mais novo funcionário para tomar café.

O tal homem apontou para uma serra e perguntou se Braz conseguia vê-la, pois metade daquelas terras era dele e lá ele tinha uma fazenda.

Braz foi encaminhado ao gerente da fazenda Manoel Cassiano. Em chegando lá ficou maravilhado com a abastança. A colheita de milho era feita em grande quantidade, espigas belíssimas à vista estava por toda parte. Dirigiu-se à porta e bateu.

Uma moça baixinha, clara e atenciosa veio atendê-lo. Foi o primeiro rosto avistado naquele lugar, mais tarde não seria esquecido. A ela perguntou:

- Aqui é a fazenda de seu Antônio Luiz? A moça confirmou. Ele, então, pediu que entregasse o bilhete que o encaminhava. Seu Manoel Cassiano ouviu a conversa e não o recebeu com cara de bons amigos, falando que o patrão abarrotava a fazenda de gente que nem conhecia. Meu tio não ficou calado. Perguntou se o gerente realmente entendeu a recomendação. Seu Manoel ficou em silêncio e chamou um morador e entregou Braz aos cuidados dele, que diria qual seria suas tarefas.

Tratou de pegar sua mala, que agora já não era um “saco”. Dôra, a filha de seu Manoel, que recebera Braz, adiantou-se e pegou a tal maleta, dizendo:

- Deixa. Eu guardo para você, e antes venha tomar café. Depois meu pai vai lhe dizer onde você realmente vai ficar. Se na casa grande ou em uma das casas dos moradores. A noite vai ter uma debulha de feijão... Venha... E foi preparar-lhe o café.

Passado o dia de trabalho, Braz preparou-se a noite para tal debulha que foi feita em mutirão. Tratou de arranjar um lugar junto a grande lona estendida no chão, com o montante de vagens ao meio.

Dôra apressou-se e disse que procuraria uma vasilha e os dois debulhariam juntos.

Ela trouxesse um cesto e os dois sentaram-se em um banco de madeira e começaram, não só a debulhar feijão, mas a trocar os primeiros olhares.

Braz não conseguia tirar os olhos daquela que lhe parecia tão admiravelmente simpática e atenciosa.

Depois de algum tempo começaram a namorar, meio que as ocultas do pai dela.

Meses depois de namoro, Braz resolveu pedir Dôra em casamento. O pai da moça consentiu mais falou que não queria embromação, que ele tratasse de agir.

Tio Braz pediu 15 dias para ir buscar parte de seus documentos. Na verdade o principal era um tal de “batistério”, um documento concedido no ato do batismo pela igreja católica. Sem ele não haveria casamento, e ao que parece Braz não trouxe consigo nem o registro de nascimento. Ele nasceu em 1926.

Em 1948 Braz estava de volta ao lugar que lhe causou tantas dores, seja por ter perdido os pais, seja por causa da infância difícil, seis anos depois, embora sempre mandasse cartas aos familiares. Nesse momento era inevitável o anseio em rever os irmãos, mas sabia que eles estavam espalhados. Não tinha certeza se veria a todos.

Lembrou-se de quando os deixou naquela madrugada, de como seu coração ficou partido. Como estariam seus irmãos? Era o que ele mais queria saber.

Era por volta de meio dia quando Braz chegou a Sítio Piranhas. Realmente todos estavam espalhados. Diomédio e a esposa estavam em Martins, seus irmãos João e Pedro estavam em casa dos tios, que não era tão distante. Pouco a pouco ele foi revendo-os e foi àquela surpresa agradável.

Diomédio só o viu depois, e este quis saber se ele veio para ficar. Depois de explicar como foi sua vida lá fora, Braz falou do verdadeiro motivo que o trouxe ali.

Depois de seis dias de viagem, Braz retornou à família de seu sogro, que recebeu os documentos, mas não deu entrada no casório logo de imediato. Durante uns poucos dias seu Manuel procurou conversar com seu filho mais velho Antônio Cassiano. Queria saber a opinião a respeito das intenções de seu futuro genro. Antônio foi totalmente favorável e o casamento simples aconteceu em 1949.

Em 1951, aproximadamente, Lourenço, que não gozava de boa saúde e morava em Mossoró com sua irmã Luíza, faleceu. Braz não pôde estar presente em seu funeral.

O casal foi morar em uma fazenda vizinha. Lá eles trabalharam durante aproximadamente cinco anos, onde tiveram os três filhos mais velhos: Hildo, Edma e Vani Diniz. Diniz por parte de mãe.

Depois desses anos a família passou algum tempo em algumas cidades: Patos, Sapé da Paraíba... Depois voltou para São Mamede. Foi aí que o cunhado Antônio Cassiano, que trabalhava com construção, o convidou para ir para Petrolina, pois havia uma grande obra a ser realizada. Ele aceitou.

A obra começou com a estrada ferroviária, que no final não dera muito certo. Dôra, esposa de Braz, ficou muito contrariada e quis voltar urgentemente para Patos, com seu irmão. Braz combateu tal ideia com veemência afirmando: “Você casou-se comigo, não com seu irmão. Então, para onde eu for você tem que me seguir”. Dôra sossegou.

Braz interessou-se muito em comprar um terreno em Petrolina. Dôra conformada consentiu, mas fez uma exigência: “Compre perto da Igreja Católica”. Braz sempre fora piadista e respondeu: “Vou ver se o padre me vende a sacristia”.

O terreno foi comprado no centro de Petrolina. Nos arredores, não tão vizinhos, existia a catedral, feita com pedras, o jornal “O Farol”, o famoso “Ponto Chique”, em uma esquina da Avenida Guararapes. Mais a frente, às margens do rio São Francisco, outra pequena igreja, a matriz. Nas demais proximidades só matagal, isso em 1955. Braz viu Petrolina “adolescente” e uma “adulta” em rápido desenvolvimento.

Ele era conhecido pelo seu senso de humor extremamente afinado. Conta-se que certa vez ele adentrou uma pequena e simplória lanchonete e pediu uma vitamina de abacate, que ele adorava. Em seguida entrou também um senhor mal vestido, olhou para ele e disse: “O senhor parece um homem tão trabalhador, mas tem “alguma coisa” atrapalhando sua vida. Deixa-me ler sua mão?” Meu tio olhou o homem dos pés a cabeça, viu suas sandálias gastadas até a metade dos pés e decretou: “E essa ‘coisa’ acabou de chegar”. O homem emudeceu e saiu. O dono da lanchonete morreu de rir. Braz justificou: “Ele não consegue dar um jeito na vida dele e quer fazer isso com a dos outros”.

A família voltou ao sertão do Rio Grande do Norte em 1960 com os três filhos, a passeio. Minha mãe, Laura, estava recém-casada com meu pai João. Ela providenciou um delicioso almoço à base de galinha d’angola. Os meninos correram atrás das galinhas com paus e vassouras espantando-as para longe, fazendo algazarras. Precisou meu pai caçá-las com espingarda e a tiros. No final deu tudo certo.

Em 1968 nascia o Projeto de Irrigação de Bebedouro, distrito de Petrolina. Foi o “bum” daquele ano em termos de desenvolvimento, de frentes de trabalho, de oportunidade aos pequenos agricultores por meio da irrigação. Tudo subsidiado pelo Governo Federal. Como tantos outros, Braz aproveitou a oportunidade para também trabalhar lá. O ensejo era propício a todos.

Em Bebedouro Braz teve oportunidade de conhecer seu João Nascimento, outro empreendedor da construção. Seu João teve a chance de ganhar a concorrência para a construção da Usina de Açúcar Agrovale, em Juazeiro-BA, vizinha de Petrolina, dos irmãos “Farias”, de Alagoas. Seria gerida pelo administrador Gilberto Farias (irmão de “PC” Farias envolvido nos escândalos do governo Collor de Mello, na década de oitenta).

Braz, assim como meu pai, trabalhou na construção da usina. Mas ele era um homem de visão, tratou de montar um pequeno restaurante para atender os operários da obra e foi se dando muito bem.

Certa vez, um senhor que morava lá perto, iria sair de mudança do lugar e ofereceu um terreno a Braz e este topou fazer o negócio. A terra era vizinha da Agrovale. Eram bons hectares. Com o tempo, a Agrovale foi comprando terras e cercando Braz por todos os lados, mas o senhor Gilberto era um homem bom e compreendendo a situação das terras de Braz e seu bom comportamento, sempre permitiu que a família transitasse pelo meio da Agrovale, para se chegar a casa do mesmo.

Meu pai, João, e seu irmão Braz eram bons amigos. Ele sempre nos presenteava com alguns animais de sua roça, e meu pai retribuía com serviços de pedreiro, carpintaria e principalmente na moagem, onde Braz construiu um engenho para moer cana para a produção de rapadura e mel.

Braz acreditava no futuro dos filhos e batalhava pelos estudos dos mesmos e em meio ao sacrifício contribuiu com a formatura deles: Edma fez faculdade de Matemática e tornou-se professora. Hildo formou-se em Agronomia, mais tarde ocuparia o cargo de superintendente da CODEVASF (Companhia de Desenvolvimento do Vale São Francisco, responsável pelo implemento de projetos de irrigação), em Petrolina. Edvaldo também fez agronomia. Vani fez o curso de Técnico Agrícola e deixou a faculdade de matemática sem concluir. Edileuza formou-se em Administração de Empresas.

Em 2006 quase toda a família reuniu-se na fazenda. Fomos comemorar o aniversário de 80 anos de tio Braz. Todos os filhos estavam lá. Os filhos de João, seus sobrinhos, resolveram fazer uma pequena surpresa e Nilson Silva compôs uns singelos versos no estilo cordel.

Foi mesmo surpreendente. Todos ficaram admirados. Ele sentou-se em uma cadeira enquanto meu irmão lia o cordel. Em cada episódio a plateia gritava “êêêê”, de maneira muito divertida. Ele próprio ria com gosto e de vez em quando falava: “Foi desse jeito!”

Mas a vida de Braz, agora na melhor idade, não era só alegria como a que ele vivera nesse aniversário. Dois anos depois, em janeiro de 2008, a vida lhe mostraria o lado mais negro que ele já tinha visto até então: faleceria seu filho mais velho Hildo Diniz, durante o procedimento de uma angioplastia. Hildo acenou para a esposa, Ritinha, sua filha Fabrícia e seu irmão Edvaldo, segundos antes de entrar na sala, mas não sabia ele que era um adeus. Foi espantosamente doloroso para toda a família.

Hildo era quem administrava a fazenda, junto com a esposa, Rita, uma mulher destemida. Com a morte dele a estância foi vendida para a própria Agrovale que derrubou praticamente tudo para utilizar o espaço na plantação de cana de açúcar.

Durante esse aniversário meu tio estava lúcido, mas sua mente foi se deteriorando até os médicos chegarem à conclusão de que ele estava com Alzheimer. Depois disso começou a dar muito trabalho, inclusive fugindo de casa.

De uma feita ele protagonizou uma situação hilária. Evadiu de sua residência e foi pararem um local bem distante, considerando o percurso a pé, um local próximo às margens do Rio São Francisco, defronte a um hotel na orla. Lá ele se deparou com um carro “pampa”. O dono do veículo estava recolhendo umas lavagens para os porcos dele. A porta do carro estava aberta e Braz simplesmente entrou, deu partida e seguiu estrada a fora.

Quando o dono retornou ficou de mãos na cabeça, tamanho o desespero e gritava para que chamassem a polícia. Ocorre que a sorte estava do lado de Braz. O gerente do hotel reconheceu Braz como sendo o pai do “doutor” Hildo Diniz, primo do advogado Janduí Diniz. O gerente tentou acalmar o homem de todas as maneiras e pediu a ele que não chamasse a polícia e explicou o estado de saúde de Braz. Em meio ao desespero eles observaram que havia uma listra molhada no asfalto a frente, o rapaz deduziu que era do tambor de lavagem que estava aberto e durante o sacolejo fazia o líquido da lavagem jorrar.

Nesse ínterim as filhas e a esposa estavam desesperadas e o procuravam por toda parte.

O gerente e o dono do carro seguiram o rastro e o encontraram estancado em um local em que o carro “apagou”, uns quatro quilômetros distante do hotel. O proprietário do carro rumou agressivamente em direção a Braz xingando-o. Braz exigia consideração e dizia que era uma pessoa respeitável. O gerente tentava acalmar a situação. O gerente ligou para Janduí, que logo chegou e tentou argumentar. Braz não queria conversa e não entregava as chaves.

Janduí entrou no “jogo”:

- O que foi tio...? O que aconteceu?

- Rapaz, esse meu carro nunca me deu problema e agora não quer “pegar”. E esse cara está dizendo que eu roubei o carro!

O dono do carro estava muito zangado e todos exigiam dele compreensão.

Janduí interrogou:

- Então... Se o carro é seu cadê os documentos do carro e sua carteira de motorista?

Como a mente dele tinha lapsos de lucidez ele respondeu:

- Que eu saiba você é advogado e não delegado.

Foi impossível todos não rirem.

O sobrinho dele, com jeitinho, tratou de levá-lo dali, prometendo que o carro “dele” viria logo atrás. Para alívio das filhas foi comunicado que Braz fora encontrado.

Certa vez ele precisou assinar determinado documento, de muita importância, a filha Edileuza treinou-o o dia todo. Colocando em um papel o nome dele completo: “Braz Alves da Silva”. Ele assinava corretamente, mas quando chegou o dia Edileuza deixou-o um pouco à vontade e ele foi assinando. Quando ele terminou a filha observou que faltou a preposição “da” e falou:

- Pai o senhor assinou “Braz Alves Silva”, faltou o “da”! É “Braz Alves da Silva”. Ele respondeu.

- Olha, eu não tenho o que “dá”. Eu não tô dando mais nada!

A gerente riu bastante, mas não teve quem o fizesse assinar novamente e a gerente se viu obrigada a acatar àquela forma.

De outra vez não teve nada de engraçado. Ele sumiu por quase vinte quatro horas, dentro de sua própria roça. Foi acionada, em primeiro lugar a família, depois, os operários da Agrovale e por último o Corpo de Bombeiros. Ele foi encontrado todo maltrapilho, com fome, ensanguentado, com sede e coberto de todo tipo de espinho.

Em dezembro de 2014 Braz perderia sua filha Edma. Ela era arrimo emocional de sua vida. Sempre presente, sempre atenta, sempre o conduzindo. Não dava um passo sem antes não procurar saber como ele estava, de um modo geral. Inclusive levou-o para viver um tempo com ela.

Chegou o dia que Edma, por recomendação médica, teria que fazer uma angioplastia. Ela morava bem próxima a casa dos pais. Cedinho passou lá, pois era caminho para o hospital Neurocárdio, que de tão perto, dava para ir a pé e foi o que ela fez. Falou com o pai, a mãe e a irmã Edileuza, afirmando que por volta de tal hora retornaria. Aparentemente ela estava bem tranquila. Foi-se alegre. Certa de que logo voltaria. Mas não voltou. 

Os momentos de compreensão, por parte de Braz, de que havia perdido a filha amada, foram bem poucos.

Teve um período que Braz andou muito doente, todos pensavam que ele iria morrer naquela ocasião.

Vencido esse momento difícil, Braz seguia firme e forte parecia muito saudável em seus oitenta e tantos anos, embora, com sua memória tendo pouquíssimos lampejos de lucidez, fazendo ainda suas piadas. Ele agora estava sob os cuidados de Edileuza, que amparava seus idosos. Mas a idade não perdoa e o corpo não suporta. Aos 89 anos, em dezembro de 2015, Braz disse adeus, para sempre, a alguns revezes da vida.

À frente de um grande um homem, uma boa mulher. Dôra tem suportado tudo isso e permanecido firme, mesmo que oscile em suas limitações de pessoa idosa e algumas enfermidades que a idade traz, porém, é uma pessoa muita lúcida em seus 88 anos.

Em 2018 tivemos uma ótima festa em família. Comemoramos o aniversário de Dôra, que completara 90 anos, foi realizado em uma excelente chácara, às margens do rio São Francisco, rodeada de verde e com muitos familiares reunidos.

 

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